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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Episodio XXVI - Dos recantos da memória

De tempos em tempos escrevo para ti. Dos recantos da minha memória. Do silêncio do meio da noite.
Escrevo-te para não te esquecer. Escrevo para não me esquecer do que se faz para dizer. Para saber como me dirigir.


Escrevo-te horas e horas. De fio a pavio. O discurso é o mesmo. As palavras são diferentes. Fazem sentido.
Não há cá poetas a viver aqui. Na minha cabeça não há tempo para tolos.


As mãos estão frias. Os pés gelados. De certo que não pego numa caneta há muito tempo. Não faço intenções de te dar algo a ler, algo a ouvir, algo a sentir. De certo que não pego num coração há muito tempo.


A quem me lê que não me julgue. Estas palavras podiam ser para qualquer pessoa. Mas como os recantos não são redondos, ficam sempre letras presas aos cantos, e ninguém sabe a mensagem. Esta, é mais uma para o vazio.


"Sem ti, não sei dar valor ao que me enche."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Episodio XXV - bocado de verão

Noite quente.
Estrelas, muitas.
Álcool à mistura.
Imensa gente e
loucura profunda e
algures
um crepitar de madeira a arder.

Cheira a pinheiro e pó.

As cores são laranjas, azuis, brancas e negras.


Muitas saias coloridas e
muitos pés descalços.


Troca-se o olhar.

Em círculos, pelo meio das pessoas, aproximam-se.

A iluminação é fraca.
Duas pessoas passam pelo meio
,em passo cruzado,
interrompendo a tensão fixa.

De volta à noite, quebra-se o sonho.

Episodio XXIV - Aquele momento

Uma confusão negra,
em contraste,
acaba bem.
Também em noite madrugadora
mas
de escuridão enganada pelas luzes imensas.
Multidões. Confusões. Gente de branco e negro.
Dois grupos se movem sem se saber pelo meio de tudo.
Feminino e masculino.
O mesmo passo.
Multidões. Confusões. Encontrões.
Breve clareira.
Tic.
Duas caras sérias se cruzam. Iam velozes. Reconhecem-se. Espantam-se.
Tac.
Ela, de costas pela direita se volta ainda em passo rápido.
Olhar
(sur)preso.
Ele, virou-se de frente.
Olhar intrigado.
Eixo invisível entre eles que atrai.
Tic.
Mais ninguém parece (re)parar.
O resto do grupo feminino ainda tenta chamar e perceber.
O resto do grupo masculino ainda tenta abrandar e perceber.
Tac.
Os vultos brancos e negros misturam-se. Pó em todo o lado.
Tic.
Percebem. Tudo...
Beijam-se.
...faz sentido.
Tac.
Deixaram de perceber. Não faz sentido.
Tac.
Separam-se.
Ela vira costas como se retomasse os seis segundos perdidos.
Ele dá um passo atrás para recuperar o equilíbrio enquanto a vê a afastar, incrédulo, quebrando o movimento com outro passo decidido a recuperar os seus sete segundos.
Nada se passou.
Tic.
Muitas perguntas no ar e algum álcool no sangue. De todos.
Foi um beijo de mãos dele nas caras um do outro. Um beijo de olhos fechados. Doce. Tranquilo.
O contraste absoluto.
Ninguém acaba raciocínios.
Todos continuam a dar, passo por passo, a sua batida forte.
Não se vêm mais pela noite.
Nem sabiam que se iam encontrar.
Tac.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Episodio XXIII - Mão ao Pé

É como aqueles momentos em camas de hospitais.

Trata-se de um alguém que está deitado numa cama. E é velho. E está só. E não faz nada senão viver. E existe.

Mas é alguém que vai tendo as enfermeiras ao pé.

Umas que entram no seu quarto, a tagarelar sem um fim próximo e outras que sem mais nada agarram na sua mão a fazer festinhas como se fosse a tarefa das 16 horas da tarde.

Todas borradas de medo de fazer uma pergunta que seja sobre esse alguém porque sabem que é (mais um) velho deitado numa cama de hospital que não faz nada senão estar acordado e ter a consciência que apenas está a existir, praguejando a toda a hora na sua cabeça que o que mais lhe apetece é fugir dali p’ra fora.

Todas a arrastar a voz como que se fosse mais animador quando na verdade faz perder a paciência porque demora-se 3 minutos a ouvir algo de 30 segundos.

Todas com conversas do dia solarengo ou dos mexericos da vida nos corredores hospitalares sobre a médica que deixou cair o estetoscópio no chão e rachou a saia enquanto apanhava. Todas com discursos do mais puro nada a cumprir a tarefa das quatro da tarde.

Então esse alguém tem de fazer alguma coisa.

Então

espera por alguém.

Porque o que se quer é ter alguém.

Não importa o tempo que faz, o discurso que tem, a beleza que traz.

O que se quer é alguém que se chegue à nossa beira e que se faça sentir. Que não precise de dizer nada e que estenda a mão junto da nossa sem a tocar.

Porque sem uma palavra dizer, pergunta a esse velho que existe se quer alguma coisa.

Porque se ele quiser, ele que estenda a mão e que agarre.

Porque a companhia está lá. Está presente. É um presente.

Ele só precisa de a ir agarrando de vez em quando.

Umas vezes é um toque, outras, um simples poisar, um cruzar de dedos ou ser um forte aperto que nos toca até ao coração.

É como aqueles momentos em camas de hospitais.

Trata-se de alguém que está deitado numa cama. Mas que não é velho. Não está só. E que vive.

Faz mais que existir mas no entanto espera por alguém. Que se faça sentir. Que mostre a sua mão e o seu punho ao pé da mão e do punho dessa pessoa.

Para que seja preciso apenas agarrar quando é preciso, afastar os lençóis e ajudar a levantar da cama.

Depois disso vem um banho e tudo ficará melhor.

Episodio XXII - Creio

Estava deitada na praia. Estava com umas leggins meias molhadas da água quente do Mediterrânico sobre uma toalha meia dobrada, em cima da areia fina e fria e tanto me encanta. Mal via os meus amigos que no meio do negro da noite e o escuro do céu tomavam um banho nocturno.

Tentava abafar a música motar que rugia fortemente pelo areal adentro com o meu minúsculo ipod.

Pensava em ti.

Imaginava-me deitada sob o céu estrelado, que estava, mas numa clareira no meio de uma floresta com relva verde e molhada. Não sei porque é que, agora que tenho a praia que tanto queria, me ponho a querer agora uma erva verdejante.

Calada continuo deitada. Braço esquerdo sobre a minha barriga, braço direito atrás da nuca e joelhos para cima.

Deitas-te ao pé de mim, do lado esquerdo, com a cabeça na minha barriga. És o único que tem coragem para falar porque finalmente ouço a pergunta que me coloco tantas vezes.

- O que é que estás a fazer?

Podias ter perguntado em tom de descriminação. Podias ter posto um ponto de exclamação depois do de interrogação no final da frase. Podias ter acrescentado previamente um “mas que raio”. Podias ter medo de perguntar. Podias ter dado pausas. Podias nem saber do que estavas a falar. Mas era uma pergunta. Fizeste-a. E muito bem. E com toda a certeza do mundo. Algo que não tenho.

Estavas calmo.

Por mais desnorteada que seja essa pergunta, só o facto de a fazeres tranquilizou-me.

Creio que devo ter sorrido. Creio que nem me mexi. Creio que chorei.

Então creio que desviei um pouco a minha cabeça para a esquerda e para baixo, para poder contemplar um pouco o teu cabelo no meio da noite, a tua abstinência de agitação ao luar.

Quis te agradecer.

Quis que me abraçasses e me dissesses mil e uma coisas.

Queria continuar em silêncio.

Queria berrar “finalmente!”.

Então creio que sorri.

Porque não fiz absolutamente nada.

Porque não ia adiantar de nada.

Porque nem era preciso.

- Sei lá! Não faço a menor ideia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

episódio XXI - 3 minutos e 25 segundos

Era uma noite de Verão daquelas bem quentes. Um relvado virado para um lago num local completamente impensável. Soleno. Com a tipica misticidade que uma noite bonita trás.

Um rapaz estava sentado, voltado para o espelho aguado. Braços apoiados nos joelhos. Pernas flectidas. Mantinha-se completamente imóvel. Absorto nas paisagens da Natureza e nas paisagens da cabeça. Precisava de algo mas não sabia o quê. Algo o perturbava.

Silenciosamente uma rapariga se aproxima dele. Descalça, com uns calções curtos, um top cinzento e um casaco fino que lhe pendia no ombro direito. A relva estava fresca mas não orvalhada.
Sem lhe tocar, sentou-se. Nada lhe disse. Nada lhe fez. Não olhou sequer para ele. Ficou impávida e serena a olhar em frente.

Não houve qualquer reacção nele.

Passado 1 minuto e 43 segundos encostou a cabeça dele no ombro dela. Os olhares não desviaram. As atenções não desfocaram.

Aos 2 minutos e 11 segundos ela sente uma lágrima no seu ombro nú. Tudo deslizava suavemente. A sensatez dela. O choro dele. A lágrima dele. No ombro dela.

Não havia nada para dizer. Há muito que não diziam. Mas não importa. Palavras para quê? São bons amigos.

Depois de tudo escorrer, volta-se a sentar direito. Ambos que olhavam em frente, agora, aos 2 minutos e 43 segundos olharam um para o outro. Um olhar de 6 segundos. Depois re-dirigiram o olhar.

Aos 2 minutos e 50 ela levanta-se da mesma forma que chegou.
Silenciosa e serena.

Aí ele reagiu.
Por dentro.
Viu-a afastar-se dele tranquilamente sem nada para a impedir. Também não queria.

3 minutos e 25 segundos. Duas pessoas, uma noite. Uma despedida e dois choros.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Episódio XX - a cumplicidade

Um bar. Ou um café. Tanto faz...
A música paira, baixinha, em ambiente de fundo... ninguém sabe se é animada ou triste ou melancólica mas uma coisa é certa, tem uma guitarra.
Tudo com uma guitarra fica bem. E amigos. Indispensável.

Fotografias de tempos passados são passadas nas paredes.
Todos somos cumplices uns dos outros. Os olhares são cumplices. Os sorrisos são cumplices. as memórias são cumplices. O momento... sempre perfeito. Nenhum segundo está a mais e nenhum minuto se atrasa. Todos se dão bem.
São regressos. São saudades. São amizades há muito em espera.
São escolhas feitas e decisões tomadas. Caminhos não traçados. Vontades não realizadas.
Uma fotografia passa.
Olham-se. Relembram-se. Remorsam.
Era inevitável.
A fotografia, o olhar, os sorrisos.
Paciência!
Continuam a viver perfeitamente como até ao momento.
A mesma oportunidade nunca mais surgirá.
Os amigos, se notam, nada dizem. Mas não devem ter sido muitos a reparar.

A música volta ao ritmo de café... com o burburinho das chávenas e conversas...

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Episódio IX - o beijo

Por momentos....
Por momentos era real.
Por momentos foi real.
Por momentos havia mais paixão do que quando havia amor.
Por um momento havia mais paixão que quando havia amor.
Por um momento
o tempo parou
o beijo parou
mas tudo continuou a existir.

E depois passou.
desapareceu.
des(ex)istiu.
Voltou a ser nada
nada real.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Episódio XVIII - O bar...

Era um daqueles bares nocturnos super elegante e requintado. Com esplanadas, plantas, sofás e pufs brancos com luz amena a criar ambiente.
São 5 amigos a sair à noite, algo nada de especial. Um café, uma cerveja.
O ambiente pedia um brandy, jazz e/ou blues mas vá, sejamos realistas, a vida não é um filme. O ambiente pedia algo como....
Isto:


Duas pessoas se conhecem.

Pausa.

Ele era aquele ideal de rapaz que só se vê no ecrã ou acontece a amigos, de amigos, de amigas nossas... Alto, lindo, querido, simpático, sexy e educado. O sonho. Ela... para quê pormenores?...
E de tal forma passou-se-se como um. Algo que passou ao lado dos outros três.
Foi algo cuja expressão adoro em inglês:
they locked eyes with each other.. Foi inesperado.
(Era impossível!...)
Foi perfeito. Foi intenso. Foi mais que uma vez....

sábado, 13 de setembro de 2008

Episódio XVII - Viagem


Via. Vi.
Dentro do carro passava pela Nacional a sentir-me indiferente.
Indiferente a mim. Indiferente aos outros. Pouco importa.
Mas passei e estaquei.
Apesar do meu corpo ter continuado em frente fiquei-me para trás.
Fiquei em pé, entre as duas linhas continuas brancas e largas, sobre o alcatrão negro, no meio da alameda conhecida da Mealhada.
Estaquei no final daquele dia tão pesado, sob a luz dourada e pálida e fantástica do entardecer.
Estaquei com uma máquina fotográfica para apanhar aquele momento, aquelas árvores fortes, delgadas e belas a apanhar a luz solar do fim do dia.
Estaquei só.
Nenhum carro passava.
Apesar de ter ficado para trás o meu corpo continuava.
Apesar da luz ter passado e do por do sol ser perfeitamente vermelho.
Apesar de já não ser dia nem noite quando cheguei a Coimbra.
Não tirei os óculos escuros.
Fiquei-me para trás.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Episódio XVI - What makes the world go around

É domingo. São 3:16 da tarde e está um dia bonito para passear.
Uma rapariga caminha sobre terra batida artificial, junto a um parque verde, perto do rio. De repente aparece-lhe um rapaz. Quando entra no campo de visão periférica, ela vira-se para ele. Sorri e prepara-se para dizer: o que fazes aqui? A voz não lhe sai. Os pensamentos paralisaram-se na cabeça. As palavras ficaram-se na garganta. A sua boca fora proibida pela dele.
Pessoas passeiam descontraidamente. Crianças a brincar à bola e mães a empurrar carrinhos de mão com os seus rebentos lá dentro. Relva verde e rio ofuscante. Ninguém dá conta de nada.

Ao mesmo tempo

De olhos fechados uma rapariga saboreia as mãos da irmã que lhe mexem no cabelo em festinhas suaves e moles. Deixa-se estar quieta para aproveitar bem e refila com um pequeno gesto quando as mãos páram de mexer. Mimo fraternal nunca é dispensado.

Duas pessoas se abraçam fortemente numa estação de comboios. Um varredor de ruas pergunta-se se chegava ou partia. Nunca mais se largavam. Lembrou-se da sua mulher e sorriu. Era bom ter alguém em casa à nossa espera depois de um dia de sujo trabalho.

Duas moças passam por várias lojas de roupa de mão dada chocando a sociedade à medida que passam pois esta pensa que agora tudo é subversivo e que portanto, estas jovens inocentes, são lésbicas. Não são. São apenas amigas. Nada mais. Mania do preconceito e das ideias formadas. Mania da opinião abelhuda e alheia.

Um rapaz senta-se no parapeito de uma janela, absorvido nos seus pensamentos à medida que observa o horizonte com um ar sério e concentrado. Pensa na rapariga de quem gosta. Ela vai ser sua. É desta. É agora. Vou ter coragem. Não me digas não. Por favor. Não vai dizer.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Episódio XV - Lamentações




O marulhar das vozes humanas.
O som de uma rolha a saltar de uma garrafa por dedos ásperos e calejados.
Homens fortes. Mundanos. Arrogantes. Rudes. Trabalhadores.
A música de fundo refinada e popular.

São dias do Passado. São finais de tarde passadas em bancos de madeira, em casas portuguesas. São males esquecidos em tascas esquecidas (por todos menos aqueles que já não têm por onde ir.)
São vidas perdidas. Juventudes amargas. Pensamentos arrependidos. Tempos que não mudaram a tempo.
São sonhos inconcretizáveis. Patriotismos saudosistas e amaldiçoados.
São copos de vinho tinto em mesas escuras.

Lamentações.

Janelas de rebordo branco vistas sobre monumentos velhos de pedra e estradas de calçada gasta.

Mas
também

São sorrisos plenos e copos cheios. Olhares semi-cerrados de satisfação.
Decisões tomadas. Acções. Forças de vontade.
Guitarras com cheiro a álcool e tabaco. Ares condensados e cheios de luz.

Partilhas.

Convívios.

Companheirismo.

Tradicionalismos antagónicos.

música e vídeo dos diabo a sete, texto imaginado por mim :)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Episódio XIV - os meus pés rezam terços

Os meus pés rezam terços.

São várias gotas, vários terços, dois sapatos, dois pés.

Um pé
Um terço

Num pé meu
Um terço de uma gota
Ressalta e divide-se em três.
Cada gota cai num sapato
Sinto os meus pés húmidos.
Não sinto a chuva nos pés.
Gotas caem nos meus sapatos.
Levo uma saia rodada e sapatos de salto pretos.
Caminho sobre passeios imundos ou irregulares.
Chove.

(ler de baixo para cima)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Descasca à indecisão - Episódio XIII

Chovia a potes.
Num passo decidido marchava de noite. Cabelos a pingarem pelo pescoço abaixo.
Fugia.
A confusão era muita.
Chocava com pessoas de todo o lado. Altas, baixas, gordas, magras. Felizes, infelizes. Todos passavam e chocavam e corriam e salpicavam. Tudo mexia. Vultos negros à sua volta.
Não olhava em frente. Tentava, lutava para não cair numa poça e banhar-se em lama. Se tropeçasse, ficaria por terra.
A roupa colava-se e dificultava os movimentos do seu corpo. Agora a luta era contra si mesma. Detestava a chuva. Não queria estar ali.
Apercebeu-se que a seguiam. Parou quando lhe barraram o caminho. Era uma pessoa baixa e loira. Não tinha o olhar de quem julga, de quem analisa, de quem vai fazer algo para impedir. Simplesmente fez com que ela parasse de andar.
Um grupo seguia-se. Ainda eram vários.
Não conseguiu sentir raiva, frustração, tristeza ou pena. Não sabia como reagir. Só soube ficar imóvel, tentando abrir os olhos naquela chuva torrencial.
Eles pararam a conversa ao mesmo tempo que pararam. Todos olhavam para ela. Ela olhava para ele. Ele olhava para ela. A pessoa baixinha olhava para os outros.

Tanto tempo já se passou, tanta troca de olhares e ninguém avança?
Há sempre qualquer coisa no meio! Porquê tanta indecisão?
É tão fácil por um ponto final numa história. É tão fácil acabar com um final feliz.
É tão fácil!
Porquê tanta indecisão?! Porquê ainda parar e observar? Porquê ainda a hesitação?

Vai fugir? Vai dizer alguma coisa?
Reage! Reage depressa!
E ele? Vai fugir? Vai dizer alguma coisa?
Agarra! Agarra depressa!

É tão fácil a teoria.

Porque é que nos faltam as palavras? Porque é que gostamos tanto dos livros e dos filmes dos finais felizes? Porque é possível? Numa hipótese remota? É isso? Porque podem existir?? São livros! São filmes! Tudo pode existir!
Porque é que temos tanto medo? Temos medo de tudo, somos uns medricas! Rejeição?
Apetece-me dizer que a vida já é dura suficientemente para nos preocuparmos com uma simples rejeição. Apetece-me dizer que vamos apanhar com rejeições ao longo da vida e por isso não podemos dar tanta importância. Apetece-me dizer que a rejeição torna-nos mais fortes.
Mas a rejeição dói, e magoa, e destrói. A rejeição é dura demais para uma vida tão curta, tão frágil, tão inesperada. A rejeição endurece-nos com a sua dureza e brusquidão.

E agora? O que é que acontece?

quinta-feira, 6 de março de 2008

Episódio XII - cidade portuguesa



Um quarteto de prédios brancos e gastos. Paredes sujas e derramadas. Construções antigas e paradas no tempo. Um pátio interior já conhecido de cor e salteado. Muitos segredos e brincadeiras infantis passaram pelo cimento envelhecido. Ainda se ouvem ecos dos gritos das crianças. Gritos de êxtase inocente e puro. Canteiros pendentes e tristes dão à luz flores garridas e contrastantes. Um dia acinzentado acompanha a melodia melodramática de uma leitura de um bom escritor português. Um daqueles conceituados, de voz de bagaço e grave que palavreia asneiras formosas, floreados líricos e retratos espampanante ao mesmo tempo que se ouve uma Guitarra de Coimbra.
Num andar, uma televisão antiga de cores retrógradas com interferências no meio relata um jogo de futebol e publicidades ridículas e tradicionais. Acima, no prédio ao lado a mulher de cabelo preto e curto e avental branco lava com afinco a loiça e a cozinha de azulejos azuis banhados por raios ocasionais amarelados. à sua esquerda a vizinha gorda e sorridente tagarela incessantemente das coscuvelhices do bairro, num à-vontade desconcertante com farinha até ao cotovelo no seu braço direito. Na esquina, uma outra senhora jovem, esta de cabelos castanhos e ondulados punha a sua roupa branca com cheiro a neoblanc que perfumava as janelas próximas enquanto meditava na sua simplicidade de vida. Em cima uma avó sorria a pensar nos seus rebentos mais jovens. No lado oposto, na sombra, uma mulher berrava, de tempos a tempos, aos seus filhos, recados da mercearia do lado, para terem cuidado nos passeios, não correrem e transpirarem demasiado e para não se sujarem, ao mesmo tempo que se benzia sorridentemente de lhe ter calhado a sorte de ter uns filhos assim, que chegam a casa sempre rosados e mal vestidos, pois na verdade adorava os seus comportamentos aparente e socialmente rebeldes.
O vizinho de cima, o gordo frustrado é de quem os miúdos têm medo. Refila com tudo e com nada. A sua insatisfação é permanente mas no entanto é o adorado por todos e o coração mole, assim como os velhotes do quarteto. Em baixo, a empregada do avental de padrão de florzinhas pequeninas cor-de-rosa atira energicamente o balde grande da lixívia com água para o cimento do pátio tão sabedor paralelamente à passagem de uma mulher muito fina e com ar simpático que vai ao talho que conhece ao virar da esquina desde pequenina pedir meio quilo de lombo de porco para fazer carne assada com batatinhas assadas e um arrozinho branco para amanhã se deliciarem com um bacalhauzinho cozido e azeito quente por cima.
A loiça da senhora de cabelo preto e curto ainda se ouve, ao mesmo tempo que pedacinhos de espuma saltam da janela da cozinha para fora, juntando-se mais tarde à espuma asfixiante da lixívia, aniquilando, talvez, o cheiro da roupa mais branca do bairro.
Por vezes o queixume do senhor gordo, outras vezes cascas de tremoços e caroços de azeitonas se vêm das janelas abertas e maioritariamente solarengas.
Uma rápida vista de olhos a este pátio tão bem conhecido e caracterizador pela última vez, acabando de novo na voz embargadora e viciante do escritor e poeta e da guitarra que tão melancolicamente acompanha este sonho tipicamente português...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Episódio XI - Condicional

Se aparecesses cá em casa abrir-te-ia a porta. Especaria à tua frente e pasmava. Admiração não poderia ocultar mas não me dignava a sorrir. Diria Entra!, virava costas e vinha para o meu quarto. Sentar-me-ia na minha secretária à tua espera. Tu, sentar-te-ias na minha cama a olhar para mim. Não me interessaria minimamente pela tua vergonha ou desejo de falar. A verdade era que nada me dirias e o silêncio sufocar-te-ia e encher-te-ia as entranhas até te agoniares. O tempo passaria mas não iria sequer perder tempo contigo. A certa altura, por um pingo de pachorra e paciência levantar-me-ia e iria buscar comida para nós. Em monossílabas dir-te-ia para não te mexeres que iria buscar algo para comer. Depois de um passeio molengão traria hambúrgueres. Algo rápido, na esperança que não tardasse a conversa. A dado momento, depois de te atafulhares com o meu olhar fixo e sério tentarias arranjar coragem para relatar o que aconteceu. Não queria saber. Se o quisesses demonstrar, esforçar-te-ias para desabafares. Dar-te-ia uma almofada e uns cobertores em silêncio. No meu sétimo sono ainda olhavas para mim e para ti incrédulo. Na manhã seguinte arranjar-me-ia com toda a naturalidade e seguiria para as aulas satisfazendo a curiosidade dos amigos ao longo do caminho. Não me preocuparia mais contigo. Ao chegar esperaria não te ver mais até a uma necessidade de força maior. Contudo ver-me-ia enganada pois continuarias plantado na cama, de pernas cruzadas, à espera de algum tipo de consolo. Algo que não te poderia dar. Depois de um monólogo da tua parte, reagiria, sem saber como. Dir-te-ia para fazeres o mais correcto e o que achares melhor ou então ficaria calada. Eventualmente acabarias por partir. Fosse ou não, depois de uns possíveis bons momentos até uma nova visita causada por uma necessidade de força maior. Se aparecesses cá em casa não te abriria a porta. Se aparecesses cá em casa.... Se aparecesses.... Não apareces. (Já sei como é....)

sábado, 26 de janeiro de 2008

Episódio X - dez centímetros por quinze

Era uma fotografia. Daquelas que parecem estrelas de cinema num cartaz publicitário de um filme famoso. Uma comédia romântica. O casal olhava-se, cada um na sua margem da fotografia. Do papel mate de dez por quinze centímetros. Ela do lado esquerdo e ele do lado direito. Ele era mais alto por isso obrigava-a a erguer a cabeça.
Olhavam um para o outro com sorrisos bonitos. Com sorrisos colgate. Parecia que era muito felizes e feitos um para o outro. Construir uma casa, uma família, uma vida par. Uma vida comum. A dois.
No entanto a verdade encontrouva-se noutra forma.
Conheciam-se, era um facto. E sim, eram reais e andavam juntos num relacionamento enraizado de sorrisos perfeitos para a máquina que captava a imagem mas não a realidade.
Os olhares eram paralelos.
Ela olhava para cima mas não o via. Via o que estava por detrás dele e ele olhava em frente.
Embora fossem os obstáculos físicos dos seus olhares paralelos e antagónicos, ambos pretendiam simplesmente continuar a andar.
Depois de uma vista bem dada, a fotografia que captou o tão ideal, o tão perfeito casal de sorrisos bonitos e abertos mostrava as vontades dos próprios de se quererem livres, de quererem ser meras colagens daquela vida, daquele sonho idealizado e presunçoso, daquela fotografia tão falsa. Uma vontade de serem juntos, uma simples montagem.
A culpa não era dela.
A culpa não era dele.
Não lhes interessava a vida perfeita para já. Eram jovens demais para se comprometerem em tamanha ilusão.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Episódio IX - Land Art & Body Art


O seu pé era bem definido. A pele já era escura, morena. Aquele tom castanho doirado causado pelo sol. Notava-se bem com o contraste da palma. Branca, rosada. Poisava no chão com determinação e força. Não vacilava, não tremia e impunha respeito. Os tendões ficavam bem à mostra. O tornozelo era magro mas não se duvidava da sua resistência. Cada movimento seu a definia. Cada gesto, o manusear das mãos, os movimentos dos pés, o balançar do corpo era uma declaração, uma afirmação, uma asserção. Era imperativa.
O seu cabelo era espesso, volumoso e negro como a pena de um corvo. Ondulado, ondulava misticamente ao sabor do ritmo. as mãos eram graciosas e bem constituídas. Eram como os pés mas de uma delicadeza superior. Emanavam gestos fluídos, gentis e suaves.
O corpo. A barriga, o ventre, o umbigo. Marcas da sua sensualidade.
Toda ela coberta de pulseiras artesanais e ligações à terra. Toda ela comunicava com a Natureza.
Cada vez que rodava sobre si fechava os olhos, abrindo-os depois, lentamente. Eram negros e sérios.
As suas vestes eram suficientes para o que ela esperava da vida. Não lhe interessavam os excessos.
Descalça, dançava em redor de uma fogueira.
A fogueira mal iluminava mas era suficiente para criar o ambiente.
Era uma névoa de ardor e desejo. De respeito e silêncio. De dedicação, comunicação e seriedade.
Um acto apaixonado de partilha e entrega à sua tribo.
O culto. A terra. As pessoas. As vestes. A fogueira. A névoa. A noite. A rapariga. As caras. O pó. Os incensos. Os batuques. Os silêncios. As posições. As expressões. O palpitar dos corações. A dança. O crepitar. O luar. O ritual. O respeito. A devoção. Os pés morenos e definidos. As pulseiras artesanais. A floresta. O mistério. O fim.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Episódio VII - Finalizar


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Ela pega na mão dele e desata a correr.
Não param.
Sempre em frente.
Ele está espantado mas no entanto não diz uma palavra.
Enquanto corre observa-a, admirado, respeitando-a silenciosamente.

Os olhos dela brilham. Felicidade. (Será?)
Não creio que tratasse da felicidade dela.

Os passos são largos e levantam os pés bem alto para chegar mais rapidamente ao seu destino.

Ela sorria.
Estava determinada.
Era uma avenida inteira. Não se sabe por quanto tempo andaram a correr.

Era um dia de sol intenso.
Ela tinha uma camisola vermelha ligeiramente comprida no tronco, jeans e sapatilhas amarelas. Por cima usava um casaco, também comprido, preto, quente, de um corte que abre, sem fazer balão e um cachecol à volta da gola do casaco, pendente.
Ele vestia um blusão preto. Era pouco mais alto que ela. Também de jeans e sapatilhas pretas, só não se sabe o que usava por baixo. Fazia frio.

As faces estavam coradas.
Estavam confiantes.

Ainda agarrada ao pulso dele, ele ligeiramente atrás, a acompanhar o passo dela, corriam.

Chegando ao seu destino, ela sorri. Abraça-o com força e despede-se.
(ele observa-a da janela do compartimento.
Ele arranca.)
Ela suspira, realizada, na plataforma.
Vira as costas e vai-se embora.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Episódio VI - Harmonious Silence


They were about fifteen people.
She was in a Carnival.
She was with her friends.
The friends that he didn't knew. The friends he never wanted to know.
She was smiling. Having some fun.
And then he appears.

She turns around, still smiling with her friends.
She sees him and she stops.

The smile faints away.
She walks at him, or he walks at her. They don't know. Time and Space are too confusing for them.

He says it's over.
She shakes her head.
No.
No.
No. No. No. NO. NO!
It wasn't her fault although she felt it was. It wasn't he's either. (Who was it, then?)
She does not say a word. Everything is in her head, waiting to burst.
Burst into shouts, burst into tears...

Her eyes are red.
It was almost. Almost.

He looks at her.
He doesn't want to brake up too.

She looks at him and...

He leaves.
With large steps, he leaves.

Now, with large steps, he left.
She thinks, or doesn't think because she's too busy with shock to deal with time, space and feelings.

She doesn't move.

Her friends were watching.
She looked at them and they looked at her.

She turned her back at them and walked into the beach.
Everything was glowing. far away, with the lights of the diversions.

She steps the sand. It was cold. It was night. Dark night.
A music plays, in the background. It was her brake up soundtrack.
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She walks a little more, into the ocean but she freazes on the way.
She falls on her knees, with her back straight and her eyes wide open.
A slight breeze came from the back.

One of her friends come closer. It was a girl. She sat next to her. Both in deep silence.
They hold hands.

After a while, another person came along. It was a boy. Taller and older then her. He sat next to her.

Then, really slowly, they had lain down. Looking at the sky. Looking at the deep, dark blue.

In the end, they all came along.
All in perfect and harmonious silence.
And they stood there. Lying next to each other. Holding hands. In the cold sand. On a deep, dark blue night. Looking at the sky with they're eyes wide open.

In a perfect, sad and harmonious silence.