quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Episodio XXVI - Dos recantos da memória
Escrevo-te para não te esquecer. Escrevo para não me esquecer do que se faz para dizer. Para saber como me dirigir.
Escrevo-te horas e horas. De fio a pavio. O discurso é o mesmo. As palavras são diferentes. Fazem sentido.
Não há cá poetas a viver aqui. Na minha cabeça não há tempo para tolos.
As mãos estão frias. Os pés gelados. De certo que não pego numa caneta há muito tempo. Não faço intenções de te dar algo a ler, algo a ouvir, algo a sentir. De certo que não pego num coração há muito tempo.
A quem me lê que não me julgue. Estas palavras podiam ser para qualquer pessoa. Mas como os recantos não são redondos, ficam sempre letras presas aos cantos, e ninguém sabe a mensagem. Esta, é mais uma para o vazio.
"Sem ti, não sei dar valor ao que me enche."
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Episodio XXV - bocado de verão
Estrelas, muitas.
Álcool à mistura.
Imensa gente e
loucura profunda e
As cores são laranjas, azuis, brancas e negras.
Muitas saias coloridas e
muitos pés descalços.
Em círculos, pelo meio das pessoas, aproximam-se.
Episodio XXIV - Aquele momento
em contraste,
acaba bem.
mas
de escuridão enganada pelas luzes imensas.
Dois grupos se movem sem se saber pelo meio de tudo.
Feminino e masculino.
O mesmo passo.
Multidões. Confusões. Encontrões.
Breve clareira.
Tic.
Duas caras sérias se cruzam. Iam velozes. Reconhecem-se. Espantam-se.
Tac.
Ela, de costas pela direita se volta ainda em passo rápido.
Olhar (sur)preso.
Ele, virou-se de frente.
Olhar intrigado.
Eixo invisível entre eles que atrai.
Tic.
Mais ninguém parece (re)parar.
O resto do grupo feminino ainda tenta chamar e perceber.
O resto do grupo masculino ainda tenta abrandar e perceber.
Tac.
Os vultos brancos e negros misturam-se. Pó em todo o lado.
Tic.
Percebem. Tudo...
Deixaram de perceber. Não faz sentido.
Tac.
Separam-se.
Ela vira costas como se retomasse os seis segundos perdidos.
Ele dá um passo atrás para recuperar o equilíbrio enquanto a vê a afastar, incrédulo, quebrando o movimento com outro passo decidido a recuperar os seus sete segundos.
Nada se passou.
Tic.
O contraste absoluto.
Ninguém acaba raciocínios.
Todos continuam a dar, passo por passo, a sua batida forte.
Não se vêm mais pela noite.
Nem sabiam que se iam encontrar.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Episodio XXIII - Mão ao Pé
É como aqueles momentos em camas de hospitais.
Trata-se de um alguém que está deitado numa cama. E é velho. E está só. E não faz nada senão viver. E existe.
Mas é alguém que vai tendo as enfermeiras ao pé.
Umas que entram no seu quarto, a tagarelar sem um fim próximo e outras que sem mais nada agarram na sua mão a fazer festinhas como se fosse a tarefa das 16 horas da tarde.
Todas borradas de medo de fazer uma pergunta que seja sobre esse alguém porque sabem que é (mais um) velho deitado numa cama de hospital que não faz nada senão estar acordado e ter a consciência que apenas está a existir, praguejando a toda a hora na sua cabeça que o que mais lhe apetece é fugir dali p’ra fora.
Todas a arrastar a voz como que se fosse mais animador quando na verdade faz perder a paciência porque demora-se 3 minutos a ouvir algo de 30 segundos.
Todas com conversas do dia solarengo ou dos mexericos da vida nos corredores hospitalares sobre a médica que deixou cair o estetoscópio no chão e rachou a saia enquanto apanhava. Todas com discursos do mais puro nada a cumprir a tarefa das quatro da tarde.
Então esse alguém tem de fazer alguma coisa.
Então
espera por alguém.
Porque o que se quer é ter alguém.
Não importa o tempo que faz, o discurso que tem, a beleza que traz.
O que se quer é alguém que se chegue à nossa beira e que se faça sentir. Que não precise de dizer nada e que estenda a mão junto da nossa sem a tocar.
Porque sem uma palavra dizer, pergunta a esse velho que existe se quer alguma coisa.
Porque se ele quiser, ele que estenda a mão e que agarre.
Porque a companhia está lá. Está presente. É um presente.
Ele só precisa de a ir agarrando de vez em quando.
Umas vezes é um toque, outras, um simples poisar, um cruzar de dedos ou ser um forte aperto que nos toca até ao coração.
É como aqueles momentos em camas de hospitais.
Trata-se de alguém que está deitado numa cama. Mas que não é velho. Não está só. E que vive.
Faz mais que existir mas no entanto espera por alguém. Que se faça sentir. Que mostre a sua mão e o seu punho ao pé da mão e do punho dessa pessoa.
Para que seja preciso apenas agarrar quando é preciso, afastar os lençóis e ajudar a levantar da cama.
Depois disso vem um banho e tudo ficará melhor.
Episodio XXII - Creio
Estava deitada na praia. Estava com umas leggins meias molhadas da água quente do Mediterrânico sobre uma toalha meia dobrada, em cima da areia fina e fria e tanto me encanta. Mal via os meus amigos que no meio do negro da noite e o escuro do céu tomavam um banho nocturno.
Tentava abafar a música motar que rugia fortemente pelo areal adentro com o meu minúsculo ipod.
Pensava em ti.
Imaginava-me deitada sob o céu estrelado, que estava, mas numa clareira no meio de uma floresta com relva verde e molhada. Não sei porque é que, agora que tenho a praia que tanto queria, me ponho a querer agora uma erva verdejante.
Calada continuo deitada. Braço esquerdo sobre a minha barriga, braço direito atrás da nuca e joelhos para cima.
Deitas-te ao pé de mim, do lado esquerdo, com a cabeça na minha barriga. És o único que tem coragem para falar porque finalmente ouço a pergunta que me coloco tantas vezes.
- O que é que estás a fazer?
Podias ter perguntado em tom de descriminação. Podias ter posto um ponto de exclamação depois do de interrogação no final da frase. Podias ter acrescentado previamente um “mas que raio”. Podias ter medo de perguntar. Podias ter dado pausas. Podias nem saber do que estavas a falar. Mas era uma pergunta. Fizeste-a. E muito bem. E com toda a certeza do mundo. Algo que não tenho.
Estavas calmo.
Por mais desnorteada que seja essa pergunta, só o facto de a fazeres tranquilizou-me.
Creio que devo ter sorrido. Creio que nem me mexi. Creio que chorei.
Então creio que desviei um pouco a minha cabeça para a esquerda e para baixo, para poder contemplar um pouco o teu cabelo no meio da noite, a tua abstinência de agitação ao luar.
Quis te agradecer.
Quis que me abraçasses e me dissesses mil e uma coisas.
Queria continuar em silêncio.
Queria berrar “finalmente!”.
Então creio que sorri.
Porque não fiz absolutamente nada.
Porque não ia adiantar de nada.
Porque nem era preciso.
- Sei lá! Não faço a menor ideia.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
episódio XXI - 3 minutos e 25 segundos
Um rapaz estava sentado, voltado para o espelho aguado. Braços apoiados nos joelhos. Pernas flectidas. Mantinha-se completamente imóvel. Absorto nas paisagens da Natureza e nas paisagens da cabeça. Precisava de algo mas não sabia o quê. Algo o perturbava.
Silenciosamente uma rapariga se aproxima dele. Descalça, com uns calções curtos, um top cinzento e um casaco fino que lhe pendia no ombro direito. A relva estava fresca mas não orvalhada.
Sem lhe tocar, sentou-se. Nada lhe disse. Nada lhe fez. Não olhou sequer para ele. Ficou impávida e serena a olhar em frente.
Não houve qualquer reacção nele.
Passado 1 minuto e 43 segundos encostou a cabeça dele no ombro dela. Os olhares não desviaram. As atenções não desfocaram.
Aos 2 minutos e 11 segundos ela sente uma lágrima no seu ombro nú. Tudo deslizava suavemente. A sensatez dela. O choro dele. A lágrima dele. No ombro dela.
Não havia nada para dizer. Há muito que não diziam. Mas não importa. Palavras para quê? São bons amigos.
Depois de tudo escorrer, volta-se a sentar direito. Ambos que olhavam em frente, agora, aos 2 minutos e 43 segundos olharam um para o outro. Um olhar de 6 segundos. Depois re-dirigiram o olhar.
Aos 2 minutos e 50 ela levanta-se da mesma forma que chegou.
Silenciosa e serena.
Aí ele reagiu.
Por dentro.
Viu-a afastar-se dele tranquilamente sem nada para a impedir. Também não queria.
3 minutos e 25 segundos. Duas pessoas, uma noite. Uma despedida e dois choros.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Episódio XX - a cumplicidade
A música paira, baixinha, em ambiente de fundo... ninguém sabe se é animada ou triste ou melancólica mas uma coisa é certa, tem uma guitarra.
Tudo com uma guitarra fica bem. E amigos. Indispensável.
Fotografias de tempos passados são passadas nas paredes.
Todos somos cumplices uns dos outros. Os olhares são cumplices. Os sorrisos são cumplices. as memórias são cumplices. O momento... sempre perfeito. Nenhum segundo está a mais e nenhum minuto se atrasa. Todos se dão bem.
São regressos. São saudades. São amizades há muito em espera.
São escolhas feitas e decisões tomadas. Caminhos não traçados. Vontades não realizadas.
Uma fotografia passa.
Olham-se. Relembram-se. Remorsam.
Era inevitável.
A fotografia, o olhar, os sorrisos.
Paciência!
Continuam a viver perfeitamente como até ao momento.
A mesma oportunidade nunca mais surgirá.
Os amigos, se notam, nada dizem. Mas não devem ter sido muitos a reparar.
A música volta ao ritmo de café... com o burburinho das chávenas e conversas...
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Episódio IX - o beijo
Por momentos era real.
Por momentos foi real.
Por momentos havia mais paixão do que quando havia amor.
Por um momento havia mais paixão que quando havia amor.
Por um momento
o tempo parou
o beijo parou
mas tudo continuou a existir.
E depois passou.
desapareceu.
des(ex)istiu.
Voltou a ser nada
nada real.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Episódio XVIII - O bar...
São 5 amigos a sair à noite, algo nada de especial. Um café, uma cerveja.
O ambiente pedia um brandy, jazz e/ou blues mas vá, sejamos realistas, a vida não é um filme. O ambiente pedia algo como....
Isto:
Duas pessoas se conhecem.
Pausa.
Ele era aquele ideal de rapaz que só se vê no ecrã ou acontece a amigos, de amigos, de amigas nossas... Alto, lindo, querido, simpático, sexy e educado. O sonho. Ela... para quê pormenores?...
E de tal forma passou-se-se como um. Algo que passou ao lado dos outros três.
Foi algo cuja expressão adoro em inglês: they locked eyes with each other.. Foi inesperado.
(Era impossível!...)
Foi perfeito. Foi intenso. Foi mais que uma vez....
sábado, 13 de setembro de 2008
Episódio XVII - Viagem

Via. Vi.
Dentro do carro passava pela Nacional a sentir-me indiferente.
Indiferente a mim. Indiferente aos outros. Pouco importa.
Mas passei e estaquei.
Apesar do meu corpo ter continuado em frente fiquei-me para trás.
Fiquei em pé, entre as duas linhas continuas brancas e largas, sobre o alcatrão negro, no meio da alameda conhecida da Mealhada.
Estaquei no final daquele dia tão pesado, sob a luz dourada e pálida e fantástica do entardecer.
Estaquei com uma máquina fotográfica para apanhar aquele momento, aquelas árvores fortes, delgadas e belas a apanhar a luz solar do fim do dia.
Estaquei só.
Nenhum carro passava.
Apesar de ter ficado para trás o meu corpo continuava.
Apesar da luz ter passado e do por do sol ser perfeitamente vermelho.
Apesar de já não ser dia nem noite quando cheguei a Coimbra.
Não tirei os óculos escuros.
Fiquei-me para trás.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Episódio XVI - What makes the world go around
Uma rapariga caminha sobre terra batida artificial, junto a um parque verde, perto do rio. De repente aparece-lhe um rapaz. Quando entra no campo de visão periférica, ela vira-se para ele. Sorri e prepara-se para dizer: o que fazes aqui? A voz não lhe sai. Os pensamentos paralisaram-se na cabeça. As palavras ficaram-se na garganta. A sua boca fora proibida pela dele.
Pessoas passeiam descontraidamente. Crianças a brincar à bola e mães a empurrar carrinhos de mão com os seus rebentos lá dentro. Relva verde e rio ofuscante. Ninguém dá conta de nada.
Ao mesmo tempo
De olhos fechados uma rapariga saboreia as mãos da irmã que lhe mexem no cabelo em festinhas suaves e moles. Deixa-se estar quieta para aproveitar bem e refila com um pequeno gesto quando as mãos páram de mexer. Mimo fraternal nunca é dispensado.
Duas pessoas se abraçam fortemente numa estação de comboios. Um varredor de ruas pergunta-se se chegava ou partia. Nunca mais se largavam. Lembrou-se da sua mulher e sorriu. Era bom ter alguém em casa à nossa espera depois de um dia de sujo trabalho.
Duas moças passam por várias lojas de roupa de mão dada chocando a sociedade à medida que passam pois esta pensa que agora tudo é subversivo e que portanto, estas jovens inocentes, são lésbicas. Não são. São apenas amigas. Nada mais. Mania do preconceito e das ideias formadas. Mania da opinião abelhuda e alheia.
Um rapaz senta-se no parapeito de uma janela, absorvido nos seus pensamentos à medida que observa o horizonte com um ar sério e concentrado. Pensa na rapariga de quem gosta. Ela vai ser sua. É desta. É agora. Vou ter coragem. Não me digas não. Por favor. Não vai dizer.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Episódio XV - Lamentações
O marulhar das vozes humanas.
O som de uma rolha a saltar de uma garrafa por dedos ásperos e calejados.
Homens fortes. Mundanos. Arrogantes. Rudes. Trabalhadores.
A música de fundo refinada e popular.
São dias do Passado. São finais de tarde passadas em bancos de madeira, em casas portuguesas. São males esquecidos em tascas esquecidas (por todos menos aqueles que já não têm por onde ir.)
São vidas perdidas. Juventudes amargas. Pensamentos arrependidos. Tempos que não mudaram a tempo.
São sonhos inconcretizáveis. Patriotismos saudosistas e amaldiçoados.
São copos de vinho tinto em mesas escuras.
Lamentações.
Janelas de rebordo branco vistas sobre monumentos velhos de pedra e estradas de calçada gasta.
Mas
também
São sorrisos plenos e copos cheios. Olhares semi-cerrados de satisfação.
Decisões tomadas. Acções. Forças de vontade.
Guitarras com cheiro a álcool e tabaco. Ares condensados e cheios de luz.
Partilhas.
Convívios.
Companheirismo.
Tradicionalismos antagónicos.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Episódio XIV - os meus pés rezam terços
São várias gotas, vários terços, dois sapatos, dois pés.
Um pé
Um terço
Num pé meu
Um terço de uma gota
Ressalta e divide-se em três.
Cada gota cai num sapato
Sinto os meus pés húmidos.
Não sinto a chuva nos pés.
Gotas caem nos meus sapatos.
Levo uma saia rodada e sapatos de salto pretos.
Caminho sobre passeios imundos ou irregulares.
Chove.
(ler de baixo para cima)
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Descasca à indecisão - Episódio XIII
Num passo decidido marchava de noite. Cabelos a pingarem pelo pescoço abaixo.
Fugia.
A confusão era muita.
Chocava com pessoas de todo o lado. Altas, baixas, gordas, magras. Felizes, infelizes. Todos passavam e chocavam e corriam e salpicavam. Tudo mexia. Vultos negros à sua volta.
Não olhava em frente. Tentava, lutava para não cair numa poça e banhar-se em lama. Se tropeçasse, ficaria por terra.
A roupa colava-se e dificultava os movimentos do seu corpo. Agora a luta era contra si mesma. Detestava a chuva. Não queria estar ali.
Apercebeu-se que a seguiam. Parou quando lhe barraram o caminho. Era uma pessoa baixa e loira. Não tinha o olhar de quem julga, de quem analisa, de quem vai fazer algo para impedir. Simplesmente fez com que ela parasse de andar.
Um grupo seguia-se. Ainda eram vários.
Não conseguiu sentir raiva, frustração, tristeza ou pena. Não sabia como reagir. Só soube ficar imóvel, tentando abrir os olhos naquela chuva torrencial.
Eles pararam a conversa ao mesmo tempo que pararam. Todos olhavam para ela. Ela olhava para ele. Ele olhava para ela. A pessoa baixinha olhava para os outros.
Tanto tempo já se passou, tanta troca de olhares e ninguém avança?
Há sempre qualquer coisa no meio! Porquê tanta indecisão?
É tão fácil por um ponto final numa história. É tão fácil acabar com um final feliz.
É tão fácil!
Porquê tanta indecisão?! Porquê ainda parar e observar? Porquê ainda a hesitação?
Vai fugir? Vai dizer alguma coisa?
Reage! Reage depressa!
E ele? Vai fugir? Vai dizer alguma coisa?
Agarra! Agarra depressa!
É tão fácil a teoria.
Porque é que nos faltam as palavras? Porque é que gostamos tanto dos livros e dos filmes dos finais felizes? Porque é possível? Numa hipótese remota? É isso? Porque podem existir?? São livros! São filmes! Tudo pode existir!
Porque é que temos tanto medo? Temos medo de tudo, somos uns medricas! Rejeição?
Apetece-me dizer que a vida já é dura suficientemente para nos preocuparmos com uma simples rejeição. Apetece-me dizer que vamos apanhar com rejeições ao longo da vida e por isso não podemos dar tanta importância. Apetece-me dizer que a rejeição torna-nos mais fortes.
Mas a rejeição dói, e magoa, e destrói. A rejeição é dura demais para uma vida tão curta, tão frágil, tão inesperada. A rejeição endurece-nos com a sua dureza e brusquidão.
E agora? O que é que acontece?
quinta-feira, 6 de março de 2008
Episódio XII - cidade portuguesa
O vizinho de cima, o gordo frustrado é de quem os miúdos têm medo. Refila com tudo e com nada. A sua insatisfação é permanente mas no entanto é o adorado por todos e o coração mole, assim como os velhotes do quarteto. Em baixo, a empregada do avental de padrão de florzinhas pequeninas cor-de-rosa atira energicamente o balde grande da lixívia com água para o cimento do pátio tão sabedor paralelamente à passagem de uma mulher muito fina e com ar simpático que vai ao talho que conhece ao virar da esquina desde pequenina pedir meio quilo de lombo de porco para fazer carne assada com batatinhas assadas e um arrozinho branco para amanhã se deliciarem com um bacalhauzinho cozido e azeito quente por cima.
A loiça da senhora de cabelo preto e curto ainda se ouve, ao mesmo tempo que pedacinhos de espuma saltam da janela da cozinha para fora, juntando-se mais tarde à espuma asfixiante da lixívia, aniquilando, talvez, o cheiro da roupa mais branca do bairro.
Por vezes o queixume do senhor gordo, outras vezes cascas de tremoços e caroços de azeitonas se vêm das janelas abertas e maioritariamente solarengas.
Uma rápida vista de olhos a este pátio tão bem conhecido e caracterizador pela última vez, acabando de novo na voz embargadora e viciante do escritor e poeta e da guitarra que tão melancolicamente acompanha este sonho tipicamente português...
quarta-feira, 5 de março de 2008
Episódio XI - Condicional
sábado, 26 de janeiro de 2008
Episódio X - dez centímetros por quinze
Olhavam um para o outro com sorrisos bonitos. Com sorrisos colgate. Parecia que era muito felizes e feitos um para o outro. Construir uma casa, uma família, uma vida par. Uma vida comum. A dois.
No entanto a verdade encontrouva-se noutra forma.
Conheciam-se, era um facto. E sim, eram reais e andavam juntos num relacionamento enraizado de sorrisos perfeitos para a máquina que captava a imagem mas não a realidade.
Os olhares eram paralelos.
Ela olhava para cima mas não o via. Via o que estava por detrás dele e ele olhava em frente.
Embora fossem os obstáculos físicos dos seus olhares paralelos e antagónicos, ambos pretendiam simplesmente continuar a andar.
A culpa não era dele.
Não lhes interessava a vida perfeita para já. Eram jovens demais para se comprometerem em tamanha ilusão.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Episódio IX - Land Art & Body Art

O seu cabelo era espesso, volumoso e negro como a pena de um corvo. Ondulado, ondulava misticamente ao sabor do ritmo. as mãos eram graciosas e bem constituídas. Eram como os pés mas de uma delicadeza superior. Emanavam gestos fluídos, gentis e suaves.
O corpo. A barriga, o ventre, o umbigo. Marcas da sua sensualidade.
Toda ela coberta de pulseiras artesanais e ligações à terra. Toda ela comunicava com a Natureza.
Cada vez que rodava sobre si fechava os olhos, abrindo-os depois, lentamente. Eram negros e sérios.
As suas vestes eram suficientes para o que ela esperava da vida. Não lhe interessavam os excessos.
Descalça, dançava em redor de uma fogueira.
A fogueira mal iluminava mas era suficiente para criar o ambiente.
Era uma névoa de ardor e desejo. De respeito e silêncio. De dedicação, comunicação e seriedade.
Um acto apaixonado de partilha e entrega à sua tribo.
O culto. A terra. As pessoas. As vestes. A fogueira. A névoa. A noite. A rapariga. As caras. O pó. Os incensos. Os batuques. Os silêncios. As posições. As expressões. O palpitar dos corações. A dança. O crepitar. O luar. O ritual. O respeito. A devoção. Os pés morenos e definidos. As pulseiras artesanais. A floresta. O mistério. O fim.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Episódio VII - Finalizar

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Ela pega na mão dele e desata a correr.
Não param.
Sempre em frente.
Ele está espantado mas no entanto não diz uma palavra.
Enquanto corre observa-a, admirado, respeitando-a silenciosamente.
Os olhos dela brilham. Felicidade. (Será?)
Não creio que tratasse da felicidade dela.
Os passos são largos e levantam os pés bem alto para chegar mais rapidamente ao seu destino.
Ela sorria.
Estava determinada.
Era uma avenida inteira. Não se sabe por quanto tempo andaram a correr.
Era um dia de sol intenso.
Ela tinha uma camisola vermelha ligeiramente comprida no tronco, jeans e sapatilhas amarelas. Por cima usava um casaco, também comprido, preto, quente, de um corte que abre, sem fazer balão e um cachecol à volta da gola do casaco, pendente.
Ele vestia um blusão preto. Era pouco mais alto que ela. Também de jeans e sapatilhas pretas, só não se sabe o que usava por baixo. Fazia frio.
As faces estavam coradas.
Estavam confiantes.
Ainda agarrada ao pulso dele, ele ligeiramente atrás, a acompanhar o passo dela, corriam.
Chegando ao seu destino, ela sorri. Abraça-o com força e despede-se.
(ele observa-a da janela do compartimento.
Ele arranca.)
Ela suspira, realizada, na plataforma.
Vira as costas e vai-se embora.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Episódio VI - Harmonious Silence

They were about fifteen people.
She was in a Carnival.
She was with her friends.
The friends that he didn't knew. The friends he never wanted to know.
She was smiling. Having some fun.
And then he appears.
She turns around, still smiling with her friends.
She sees him and she stops.
The smile faints away.
She walks at him, or he walks at her. They don't know. Time and Space are too confusing for them.
He says it's over.
She shakes her head.
No.
No.
No. No. No. NO. NO!
It wasn't her fault although she felt it was. It wasn't he's either. (Who was it, then?)
She does not say a word. Everything is in her head, waiting to burst.
Burst into shouts, burst into tears...
Her eyes are red.
It was almost. Almost.
He looks at her.
He doesn't want to brake up too.
She looks at him and...
He leaves.
With large steps, he leaves.
Now, with large steps, he left.
She thinks, or doesn't think because she's too busy with shock to deal with time, space and feelings.
She doesn't move.
Her friends were watching.
She looked at them and they looked at her.
She turned her back at them and walked into the beach.
Everything was glowing. far away, with the lights of the diversions.
She steps the sand. It was cold. It was night. Dark night.
A music plays, in the background. It was her brake up soundtrack.
|
A slight breeze came from the back.
One of her friends come closer. It was a girl. She sat next to her. Both in deep silence.
They hold hands.
After a while, another person came along. It was a boy. Taller and older then her. He sat next to her.
Then, really slowly, they had lain down. Looking at the sky. Looking at the deep, dark blue.
In the end, they all came along.
All in perfect and harmonious silence.
And they stood there. Lying next to each other. Holding hands. In the cold sand. On a deep, dark blue night. Looking at the sky with they're eyes wide open.
In a perfect, sad and harmonious silence.