domingo, 12 de agosto de 2007

Grão de arroz colorido

Hoje passeei pelos corredores campestres da Pampilhosa.
À medida que ia passando sentia-me viver enquanto o que via parecia parado no tempo. Sentia-me como um grão de arroz num mundo a preto e branco.

Olhei para a direita e vi o café onde ia com a minha família depois de almoço. Enquanto tinham conversas de adultos e bebiam o seu café, punha-me debruçada num banco (na altura da minha altura) forrado a cabedal preto, com os pés a impulsionarem para poder girar cada vez mais rápido. E todos os dias, enquanto os adultos eram adultos eu girava no banco, estando de saia, vestido, calças ou calções, insistindo em ser criança!

À esquerda, quase em frente ao café, havia um caminho privado pedonal. Adorava esse caminho! Sentia-me especial porque achava que era das poucas pessoas que sabia que era um atalho para a casa da minha avó. É verdade que quase ninguém por lá passa. Mas eu era tão pequenina e aquele caminho tão irregular que era uma delícia enfiar-me por ali, onde só cabe uma pessoa, ladeado por muros enoormes, onde havia sempre gatos selvagens, ervas esmagadas, comida p animas espalhada no chão, terra e pedrinhas.

Perto de onde estava havia o coreto. Olhei para lá e vi uma data de velhotes com ar amistoso a jogar o "jogo da malha" (ainda em preto e branco), porque a cores vi só um caminho em terra batida e pedras com poeira no ar.

Ao seguir esse caminho fui dar à rampa que dá à casa da minha avó. É uma rampa em excelente mau estado que contornava uma horta típica da terra, transformada agora numa vivenda vulgar. Por ser tão horrível, eu a minha irmã e o meu primo punhamo-nos a descer a grande velocidade nas nossas bicicletas (que iam constantemente à loja de reparações por causa dos pneus furados...)...

A casa da minha avó é perfeita como num conto de fadas.
A preto e branco: O portão de madeira branco, um pouco pesado que só fica aberto (para os carros passarem e estacionarem) se tiver pedregulhos grandes a prender no chão; a nespereira cheia de folhas secas no chão (um dos grandes passatempos era pegar no ancinho, fazer um monte com as folhas e deleitar-me com o chão em terra castanho-avermelhada com os troços feitos pelo ancinho), o caminho cheio de mini-malmequeres e relva que dá para a parte de trás da casa e para o quintal (onde me deitava no skate do meu primo a apnhar banhos de sol com um chapéu de palha em cima da cara); as papoilas gigantes (que não são papoilas mas é da família) plantadas na berma do caminho de pedras que dá à porta da casa; a comida ou tijela de leite para os gatos vadios junto às hortências na entrada da casa; a casa branca com trepadeiras verdejantes, o quintal cheio de vida e cor, cheio de compartimentos para as couves ou laranjas..., o tanque de pedra com bagas vermelhas venenosas que arrancava para atirar aos carros que passavam pela estrada adjacente à propriedade, a pequenina árvore do azevinho rodeada de pedras para a proteger, a figueira que em setembro nos enchia os pratos de figos pingo-de-mel maduros que me faziam impressão na língua de tanto os comer, o chorão com as folhas até ao chão (era como uma casa!) ao lado do portão que punha fim ao mágico quintal...

A cores: O portão de madeira verde entreaberto, a nespereira cheia de folhas no chão coberto de pedrinhas brancas, tal como o caminho que vai dar ao resto do quintal, o caminho quase invisível de pedras, a comida ou tijela de leita para os gatos vadios junto às hortências que diminuíram de número, a casa cor de rosa pálida com trepadeiras verdejantes, o quintal com ar meio abandonado mas ainda cheio de vida, o tanque de pedra, agora cheio de ervas e ramos por cima sem bagas para atirar aos carros que passam, a figueira, agora velha, mas que ainda nos mantém de pança cheia e doce, o chorão morto pelo mal que começava a causar à estrada, ao lado do portão enferrujado, que mal abre, cheio de lama e outras coisas assim feias que já praticamente não nos deixam passar para fora do quintal...

Por dentro nem menciono, pois não entrei lá.
Contudo, passei pelo adro da igreja. (onde se vai de encontro, depois de se passar o portão) Estava cheio de gente da missa mas a preto e branco estava vazio, comigo a andar de bicleta por lá...

Por fim, à frente, estava a casa dos meus pais. É muito bonita. Branca, alta, velha... Mas só vi a porta verde com as janelas fechadas, com rendinha branca atrás, os três pedregulhos altos a servirem de escada e o fóssil que existe na soleira da porta, muito macio e de certa forma, bonito. Contudo, também não entrei lá, por isso não entrarei em pormenores.

Passei a esquina da casa, passando pelo mini-mercado do Sr. Alfredo que tem tudo o que se possa imaginar, olhando para o resto da aldeia no lado esquerdo, pensando nas imagens do meu avô e no lado direito o resto da nossa casa mais a casa da madrinha e a frutaria da Júlia. Por fora não há diferença na saturação das imagens, a não ser o jardim da madrinha, que é em cima no "1º andar" da parte de fora da casa que dantes se viam plantas a lutar para mais espaço e agora apenas os vasos brancos, grandes e pesados a precisar de uma esfregadela...

Aí entrei, mas só um bocadinho.
Á medida que rodava a chava sentia por dentro um medo, ou excitação, um não-sei-quê que despertava em mim.

A casa estava escura, cinzenta, inabitável. (e não me estou a referir à minha visão a preto e branco). Estava coberta de pó e teias de aranha velhas, tábuas velhas, escada com 15 degraus altos e velhos, tudo velho.

Engoli em seco e fiquei parada a olhar.

Olhei para as escadas com que sonhava num sonho que era atirar-me de cima num vestido azul e branco que se abria formando um pára-quedas como a alice no país das maravilhas aterrando em cima do tapete (daqueles que picam) sentada à chinesa. Olhei para a porta fechada da adega, um pequeno compartimento cheio de caixas e garrafas mais cinzentas que verdes do pó. Olhei para uma divisão à esquerda, ainda mais escura que o resto da casa, cheia de tralha que faz ligação com a nossa casa e olhei para a direita. Outrora iluminada e cheia de artefactos pois era usada como um museu, agora com mais tralha e mais pó e mais escuridão.

Não avancei muito mais. Também não precisava. Dali, conseguia ver muito bem, o meu preto e branco, o meu sépia, a minha infância.

1 comentário:

  1. Adoro simplesmente este texto. Penso que por vezes todos nós gostariamos de voltar a ser crianças vendo o mundo em diversas cores. Cada vez à nossa volta está tudo mais cinza e esquecido. Encontrar algumas cores é o que nos mantem cá não é? Beijito

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