De sonho e tradição
O lente é uma canção
E a lua a faculdade
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer saudade.
Res públicas por outro Abril……. Paz, Pão, Habitação, Saúde, Educação…
Arruada do 25 de Abril:
Concentração no Jardim da Sereia – 14.00
Praça da República – Demontração de capoeira pelo “Grupo Muzenza”
Av. Sá da Bandeira
Jardim da Manga – Grupo de Jambés
Praça 8 de Maio – 1 elemento da “Camaleão” apresentam-nos poesia de intervenção
Em frente á camâra – Performance teatral pelos “É Só Fachada”
Rua Ferreira Borges – Actuação do “Círculo de inciação Teatral da Academia de Coimbra” (CITAC)
Arco de Almedina – Mùsica de intervenção com clarinete, guitarra, percurssão e voz
Largo da Portagem – Música do Grupo de percurssão “Rebimbomalho”
Parque da Cidade – Performance musical com sanfonas
Parque Verde – Final da Marcha com a presença da música do “Encerrado para Obras”
Café concerto
O Café concerto será realizado no Salão Brasil, a começar pels 21.30 H.
Contará com a presença de:
Preachy Boys (rock),
Mario Mata (música de intervenção a solo)
Mùsica de intervenção com clarinete, guitarra, percurssão e voz
Oficina de poesia

“Como hábito, estou sentada no parapeito da janela.
Escrevo.
Desenho, escrevo, sonho ou apanho sol... tanto me dá seja dia ou seja noite, mas sempre lá. Sempre no parapeito da janela. Sempre como um gato.
Agora o meu pai faz-me companhia. Ou eu faço companhia ao meu pai. Ele trabalha no seu arraiolos e eu alheio-me para o meu mundo. Como se estivesse num apartamento completamente vazio à parte do chão de madeira, das paredes pintadas de branco e do meu parapeito da janela com a janela (pois claro).
Um apartamento vazio, um parapeito da janela e eu. Eu e o meu bloco. Pois é nele ecrevo e desenho e sonho. Só não apanho sol.
Por isso, assim, vou apanhar sol e sonhar, desenhar e escrever no meu bloco.
“Clock clock clock. A noite é escura. A lua é branca e brilhante. Quase invisível. Clock clock clock. O passo é apressado. Não que houvesse grande pressa. O motivo é o entusiasmo. Clock clock clock. Ruído. Há música forte a bater perto. O manto negro atrasa. Clock clock clock. O som do sapato preto na calçada portuguesa. Clock clock clock clock. É forte. As passadas são largas. O ritmo é aliciante e frustante.
Clock clock clock clock. Está frio e surgem brisas arrepiantes. Os tornozelos arrepiam-se ao entrar na ponte. A camada fina e preta não os protegem. Clock clock clock clock! O passo é mais rápido. O capuz cai e o cabelo é empurrado para trás violentamente, os olhos ficam semi-cerrados e os joelhos descobertos. O vento vem de frente, é obrigada a baixar a cabeça e a insistir na velocidade.
Clock clock clock clock clock. Quase que corre. Clock clock clock. O passo abranda. De novo na calçada portuguesa. Está perto.
Encontra-o no meio da multidão negra.
O raspa raspa das capas, o clock clock do salto do sapatinho no chão imundo, o fush fush do vento bruto, a música alta da festa longínqua, os cabelos na boca, a poeira no ar, o barulho dos cafés e da multidão. O peso, a rapidez, a emoção! Ninguém ousa abrir as capas.
Estava de costas. Clock clock clock clock clock. Aproxima-se e quando está prestes a tocar no ombro dele, ele vira-se para trás. Clock! Ele vê-a. Está em choque. A caminho do sorriso ele pára. Está comovido. Não pronuncia palavra. O sorriso ficou inacabado. Silêncio.
- Esqueceste-te de mim?
Ela. O cabelo outrora liso, cheio de caracóis. Ali, no meio da calçada portuguesa, no meio de Coimbra! Sorria em profundo êxtase contrastando a apatia dele. Estava estático. A noite agora estava quase limpa.
- Não.
Os sons voltaram. O barulho dos morcegos, da música longínqua, dos cafés...”
Agora já posso regressar à realidade. Saio da rua, do frio, das esquinas escuras, do chão imundo, da calçada portuguesa. Passo pelo meu apartamento vazio de paredes brancas e chão de madeira. Volto à minha casa cheia, à companhia do meu pai, ao tapete de arraiolos, à televisão desportiva, à luz alaranjada do passar do tempo e a mim, que escrevo no meu bloco a apanhar sol. Sempre no parapeito da janela. Sempre como um gato.”