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terça-feira, 12 de maio de 2009

quero voltar a ser criança


Quero voltar a chegar ao pé do meu pai, dar uns puxõeszitos nas calças, olhar bem para cima (e ele bem para baixo) e pedir com voz mimada: coliiinho! E sentir a ser erguida bem longe do chão, aconchegar-me neste mimo e adormecer com a cabeça no seu ombro. Era um sossego!


Quero sentar-me ao pé da minha mãe e dar-lhe a mão e poisar a minha cabeça no seu colo para receber festinhas ou mexer-me no cabelo. Quero voltar a chamar-lhe mamã com toda a tranquilidade.

Quero adormecer em longas viagens com a cabeça nos joelhos da minha irmã, barbar-lhe os jeans e sentir-me segura. Quero o seu toque leve no meu braço para me ajudar a adormecer e o beijinho no canto da testa.

Desde pequenina que não quero crescer. Estou sempre a crescer e a ficar adulta quer queira quer não. As brincadeiras agora são outras. Agora já sou grande e pesada e velha de mais.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Apetece-me ser criança outra vez.
Pequenina, vestida cheia de cores e já toda suja de andar a brincar com os meus amigos por aí.
Apetece-me chegar a casa, já cansada e ver bonecos e desenhos animados, completamente alheada do mundo e rir-me cheia de vontade.
Apetece-me sentar no chão e espalhar os meus lápis de cor e lápis de cera e pintar um céu todo azul. Só riscalhada e traços carregados e fortes, cheios de genica, próprios de uma criança. Um céu, umas nuvens e uma tulipa vermelha. Gosto de tulipas. São bonitas e fáceis de desenhar.Desenhar até me sentir farta ou satisfeita.
Quero ser criança e ver o mundo pela primeira vez. Surpreender-me e assustar-me com pouca coisa. Ignorante dos problemas crescidos.
Quero muita coisa....

sábado, 16 de agosto de 2008

Sometimes, I close my eyes and I remember.

Sentada, no quarto do meu pai, umas vezes no escuro, outras vezes deixava-me ser vista por mim mesma.
Escondida do mundo, entre um vidro turvo e uns cortinados finos brancos. Inatingível.
Dava uso aos meus talentos mal principiados e mal acabados. A minha alma artística surgia veloz com toda a naturalidade.
Ali, no degrau da janela ou sentada na grande cama de casal de colcha branca, umas vezes fofa, outras vezes bordada, concentrava-me e abstraía-me do Presente.
Por vezes agarrada à flauta de biesel de plástico, e mais tarde, a de madeira, deixa-me ir com os canticos aprendidos do Virgílio ou com as melodias maioritariamente alemães ou holandesas.
Noutras alturas ficava sozinha com a minha voz.
Mergulhava nas músicas de Sérgio Godinho, Fausto, da "bíblia" do Mocamfe, relembrando os tempos dos acampamentos de verão, arranhando uns acordes, umas vezes dedilhados, outros (muito)mal tocados. Ou então simplesmente ficava-me com as músicas da Disney, gravando-me num mini-gravador que tinha, detestando a minha voz, ouvindo-me "masoquistamente". O Rei Leão foi um sucesso.
Divagava. Refugiava-me ali.
Muitos poemas e textos e pensamentos me visitavam a cabeça.

Deixando a Arte de fora.
Confrontei-me com realidades, medos, memórias e momentos partilhados ao telefone. Bons e maus momentos.
Passei por agonias, seguidas de mimos familiares e caprichos infantis. (muitas foram as vezes que me apoderei da cama gigantesca quando adoecia, por vezes partilhada com a minha irmã)

Sentia-me em paz. Mesmo deitada no tapete, no chão.
Sentia-me segura.

Ainda me sinto.

domingo, 12 de agosto de 2007

Grão de arroz colorido

Hoje passeei pelos corredores campestres da Pampilhosa.
À medida que ia passando sentia-me viver enquanto o que via parecia parado no tempo. Sentia-me como um grão de arroz num mundo a preto e branco.

Olhei para a direita e vi o café onde ia com a minha família depois de almoço. Enquanto tinham conversas de adultos e bebiam o seu café, punha-me debruçada num banco (na altura da minha altura) forrado a cabedal preto, com os pés a impulsionarem para poder girar cada vez mais rápido. E todos os dias, enquanto os adultos eram adultos eu girava no banco, estando de saia, vestido, calças ou calções, insistindo em ser criança!

À esquerda, quase em frente ao café, havia um caminho privado pedonal. Adorava esse caminho! Sentia-me especial porque achava que era das poucas pessoas que sabia que era um atalho para a casa da minha avó. É verdade que quase ninguém por lá passa. Mas eu era tão pequenina e aquele caminho tão irregular que era uma delícia enfiar-me por ali, onde só cabe uma pessoa, ladeado por muros enoormes, onde havia sempre gatos selvagens, ervas esmagadas, comida p animas espalhada no chão, terra e pedrinhas.

Perto de onde estava havia o coreto. Olhei para lá e vi uma data de velhotes com ar amistoso a jogar o "jogo da malha" (ainda em preto e branco), porque a cores vi só um caminho em terra batida e pedras com poeira no ar.

Ao seguir esse caminho fui dar à rampa que dá à casa da minha avó. É uma rampa em excelente mau estado que contornava uma horta típica da terra, transformada agora numa vivenda vulgar. Por ser tão horrível, eu a minha irmã e o meu primo punhamo-nos a descer a grande velocidade nas nossas bicicletas (que iam constantemente à loja de reparações por causa dos pneus furados...)...

A casa da minha avó é perfeita como num conto de fadas.
A preto e branco: O portão de madeira branco, um pouco pesado que só fica aberto (para os carros passarem e estacionarem) se tiver pedregulhos grandes a prender no chão; a nespereira cheia de folhas secas no chão (um dos grandes passatempos era pegar no ancinho, fazer um monte com as folhas e deleitar-me com o chão em terra castanho-avermelhada com os troços feitos pelo ancinho), o caminho cheio de mini-malmequeres e relva que dá para a parte de trás da casa e para o quintal (onde me deitava no skate do meu primo a apnhar banhos de sol com um chapéu de palha em cima da cara); as papoilas gigantes (que não são papoilas mas é da família) plantadas na berma do caminho de pedras que dá à porta da casa; a comida ou tijela de leite para os gatos vadios junto às hortências na entrada da casa; a casa branca com trepadeiras verdejantes, o quintal cheio de vida e cor, cheio de compartimentos para as couves ou laranjas..., o tanque de pedra com bagas vermelhas venenosas que arrancava para atirar aos carros que passavam pela estrada adjacente à propriedade, a pequenina árvore do azevinho rodeada de pedras para a proteger, a figueira que em setembro nos enchia os pratos de figos pingo-de-mel maduros que me faziam impressão na língua de tanto os comer, o chorão com as folhas até ao chão (era como uma casa!) ao lado do portão que punha fim ao mágico quintal...

A cores: O portão de madeira verde entreaberto, a nespereira cheia de folhas no chão coberto de pedrinhas brancas, tal como o caminho que vai dar ao resto do quintal, o caminho quase invisível de pedras, a comida ou tijela de leita para os gatos vadios junto às hortências que diminuíram de número, a casa cor de rosa pálida com trepadeiras verdejantes, o quintal com ar meio abandonado mas ainda cheio de vida, o tanque de pedra, agora cheio de ervas e ramos por cima sem bagas para atirar aos carros que passam, a figueira, agora velha, mas que ainda nos mantém de pança cheia e doce, o chorão morto pelo mal que começava a causar à estrada, ao lado do portão enferrujado, que mal abre, cheio de lama e outras coisas assim feias que já praticamente não nos deixam passar para fora do quintal...

Por dentro nem menciono, pois não entrei lá.
Contudo, passei pelo adro da igreja. (onde se vai de encontro, depois de se passar o portão) Estava cheio de gente da missa mas a preto e branco estava vazio, comigo a andar de bicleta por lá...

Por fim, à frente, estava a casa dos meus pais. É muito bonita. Branca, alta, velha... Mas só vi a porta verde com as janelas fechadas, com rendinha branca atrás, os três pedregulhos altos a servirem de escada e o fóssil que existe na soleira da porta, muito macio e de certa forma, bonito. Contudo, também não entrei lá, por isso não entrarei em pormenores.

Passei a esquina da casa, passando pelo mini-mercado do Sr. Alfredo que tem tudo o que se possa imaginar, olhando para o resto da aldeia no lado esquerdo, pensando nas imagens do meu avô e no lado direito o resto da nossa casa mais a casa da madrinha e a frutaria da Júlia. Por fora não há diferença na saturação das imagens, a não ser o jardim da madrinha, que é em cima no "1º andar" da parte de fora da casa que dantes se viam plantas a lutar para mais espaço e agora apenas os vasos brancos, grandes e pesados a precisar de uma esfregadela...

Aí entrei, mas só um bocadinho.
Á medida que rodava a chava sentia por dentro um medo, ou excitação, um não-sei-quê que despertava em mim.

A casa estava escura, cinzenta, inabitável. (e não me estou a referir à minha visão a preto e branco). Estava coberta de pó e teias de aranha velhas, tábuas velhas, escada com 15 degraus altos e velhos, tudo velho.

Engoli em seco e fiquei parada a olhar.

Olhei para as escadas com que sonhava num sonho que era atirar-me de cima num vestido azul e branco que se abria formando um pára-quedas como a alice no país das maravilhas aterrando em cima do tapete (daqueles que picam) sentada à chinesa. Olhei para a porta fechada da adega, um pequeno compartimento cheio de caixas e garrafas mais cinzentas que verdes do pó. Olhei para uma divisão à esquerda, ainda mais escura que o resto da casa, cheia de tralha que faz ligação com a nossa casa e olhei para a direita. Outrora iluminada e cheia de artefactos pois era usada como um museu, agora com mais tralha e mais pó e mais escuridão.

Não avancei muito mais. Também não precisava. Dali, conseguia ver muito bem, o meu preto e branco, o meu sépia, a minha infância.